AFABAN (Associação de Fanfarras e Bandas da Baixada Santista, Litoral Sul e Vale do Ribeira)

ENTREVISTA COM O MAESTRO ROBERTO FARIAS

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Publicado em Segunda, 15 Abril 2013 Escrito por admin

Maestro por vocação - Roberto Farias poderia ter sido engenheiro ou arquiteto se prevalecesse o conceito ditado à época de sua infância e adolescência. Mas o dom musical que aos 7 anos já demonstrava, mudou completamente a visão daqueles que ainda não o apoiavam na carreira artística. Músico de tradição evangélica - seu pai era pastor, amante das letras e músico autodidata - teve a formação musical através de professores particulares, e durante a escola primária ganhava destaque tocando hinos patrióticos e canções escolares ao trompete. Aos 11 anos fez seu primeiro arranjo musical.

 

Em 1970 ele tomou a iniciativa de formar uma banda musical no Colégio Afonso Schmidt, em Cubatão, onde estudava. A motivação veio após notar que a escola possuía um instrumental completo para formação de uma banda, faltando apenas alguém para conduzir o projeto. No dia 4 de abril daquele ano, acontecia, então, a estréia de Roberto Farias como maestro da Banda Musical Afonso Schmidt. Roberto Farias tinha apenas 15 anos de idade. Este grupo foi, posteriormente, oficializado como Banda Musical de Cubatão, dando origem à atual Banda Sinfônica de Cubatão.
Durante os primeiros anos da carreira, Farias já produzia o próprio repertório, transcrevendo arranjos completos e obras originais, em uma época em que não existiam arranjos para banda disponíveis no mercado. Da sua sólida formação como regente inspirou-se em nomes como Paul Bernard, Williams Nichols, Gerard Devos, Fábio Mechet e o célebre Eleazar de Carvalho. Vencedor de um grande número de concursos e campeonatos de bandas em nível regional, estadual e nacional, Roberto Farias foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento da linguagem sinfônica no Brasil, a partir do momento que se vê envolvido com o projeto de profissionalização da Banda Sinfônica do Estado de São Paulo, da qual foi o diretor artístico e regente entre 1989 e 2000.
Do Festival Internacional de Inverno de Campos do Jordão ao Curso Internacional de Verão do Brasil, o maestro Roberto Farias já passou pelos mais importantes festivais de música do país como professor de regência e prática de sinfônica. Por mais de 20 anos lecionou na Universidade Livre de Música Tom Jobim, hoje a Emesp - Escola de Música do Estado de São Paulo. Já foi regente convidado de várias orquestras brasileiras, acumulando, também, atuações no exterior como na Banda Sinfônica da Universidade da Pensilvânia, da Academia da Força Aérea Norte-americana, de Montevideu e da Província de Córdoba, na Argentina.

Um regente que também compõe
- Roberto Farias criou obras-primas como "Cubatão 2001 - Fantasia Sinfônica" e "Abertura Exótica", já executada em vários países e publicada nos Estados Unidos. Mas o maestro prefere ser conhecido como um regente que também compõe: "O exercício de composição é um ingrediente imprescindível à compreensão de qualquer obra musical. É assim que vejo a música: do ponto de vista do compositor, do regente e do instrumentista. Num conceito mais sublime, é a possibilidade de um permanente diálogo com a criação musical", afirma Roberto Farias.
Além disso, vários compositores contemporâneos têm dedicado obras a Farias, um dos mais destacados especialistas na literatura para sopros e percussão da América Latina. Dedicatórias assinadas por nomes como Alfred Reed, Mário Ficarelli, Almeida Prado, Fernando Morais, Edmundo Villani-Côrtes, entre outros. O maestro é, ainda, membro da APCA - Associação Paulista de Críticos de Arte - e foi o primeiro brasileiro a integrar o Conselho Diretor da Associação Mundial das Bandas Sinfônicas.

De volta onde tudo começou - Diretor de orquestra, regente coral e instrumentista, Roberto Farias atualmente é o coordenador dos Grupos Artísticos de Cubatão. Está à frente da Banda Sinfônica e Cia de Dança de Cubatão, Banda Marcial e Corpo Coreográfico, Grupo Rinascita de Música Antiga, Coral Zanzalá e Coral Raízes da Serra. Para ele, é uma grande responsabilidade e prazer comandar mais de 300 artistas, entre regentes, músicos, bailarinos e cantores, que fazem arte com paixão, tornando cada vez mais evidente a vocação artística de Cubatão, cidade que em que tudo teve início

 

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1-    Você tem acompanhado as bandas escolares/municipais atualmente ?

 

RF: Muito pouco. Na verdade, não como gostaria.

 

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2-    Quais são as grandes diferenças de hoje para as bandas dos anos 1970/1980 ?

 

RF: Percebo que naquela época as bandas estavam muito mais inseridas no contexto da sociedade, participando não só de concursos e campeonatos, mas de eventos de interesse geral. A sociedade, por sua vez, acompanhava a trajetória das bandas muito mais de perto. Se orgulhavam delas.

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3-    Naquela época como se conseguia montar repertório ?

 

RF: Não era uma tarefa muito fácil, dependia muito do potencial do grupo. Como não haviam edições musicais no mercado dentro daquilo que as bandas queriam tocar (aquilo que existia estava mais direcionado à banda tradicional, a banda de coreto), os regentes tinham que trazer para si essa atribuição, mas, nem sempre, todos os regentes reuniam condições para desempenhar essa tarefa. É bom lembrar que muitas bandas se valiam de arranjos muitos simples: melodia, acompanhada de uma linha de contracanto de pouca elaboração (em unissono, com trombones e raramente com eufônios) e uma linha de baixo (quando existia tuba), sobre uma base ritmica constante de percussão – um fato curioso é que bandas com metais (sem clarinetas e saxofones), com uma seção de escaletas eram consideradas bandas musicais, tanto é que na Baixada Santista, uma banda constituída somente de liras, escaletas e percussão era enquadrada nos concursos como “banda musical”. O repertório era pensado para atender a atividade das bandas durante todo o tempo, não se restringindo apenas aos concursos, mas a sua vida útil – o repertório de concurso era tratado de forma específica, concebido sempre com um semestre e até um ano de antecedência.

 

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4-    O que mais te marcou no concurso de Santos “A TRIBUNA” do ano de 1977, quando da vitória da Banda Afonso Schmidt ?

RF: Bem, não podemos falar da Banda Musical “Afonso Schmidt” sem nos referirmos ao ano de 1974, quando ela foi a responsável por uma verdadeira revolução no Concurso “A TRIBUNA”. Trouxe para a avenida o estilo da Guarda Republicana Francesa no que se refere à vestimenta e da Banda Marcial Britânica no que diz respeito ao repertório. Numa época em que o forte das bandas santistas era o samba, a Banda Musical “Afonso Schmidt” inovou investindo nas famosas marchas do “Rei das Bandas”, John Philips de Sousa, introduzindo também a Abertura do seu desfile sempre com um “Prefixo” super bem elaborado, prática essa que passou a ser adotada por outras bandas. Das marchas de John Philips de Sousa à música clássica foi um “pulinho”. Agora, falando de 1977, o impacto ficou por conta da emoção, quando Banda Musical “Afonso Schmidt” e Banda Estudantil da Cosipa – BEC se uniram para uma homenagem especial às vítimas da grande tragédia na Via Anchieta (mais especificamente no Jardim Casqueiro), quando um volumoso acidente rodoviário ceifou vidas preciosas, entre eles muitos dos nossos amigos e também músicos das nossas bandas. Vencemos a competição, tanto pela emoção quanto pela excelente musicalidade – música é emoção e isso não nos faltou. O público se viu contagiado com tudo isso.

 

 

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5-    Você não ficava nem um pouquinho como medo de perder para a banda da COSIPA ?

 

RF: Nunca isso me passou pela cabeça. Respeitava a Banda Estudantil da COSIPA e também colaborava com ela – o próprio maestro, nosso querido Mazinho, era meu aluno de música e de regência. Durante muito tempo, mesmo à  frente da Banda Musical “Afonso Schmidt” produzi arranjos para a Banda da COSIPA. É lógico que numa competição o objetivo de cada um é vencer, mas torcer contra, nunca. Sempre tivemos muito boas relações.

 

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6-    Você ainda tem guardado o primeiro arranjo para banda que você fez (A Banda de Chico Buarque) ?

RF: Pois é, gostaria de tê-lo em papel, mas infelizmente não o tenho. Era uma época sem grandes ambições e a gente fazia música quase como “brincadeira”. Eu passava todo o tempo escrevendo música para os meus amigos – era literalmente “brincar de música”. Mas, voltando ao arranjo, ainda tenho na memória grande parte da estrutura – me orgulhava muito da parte de eufônio (um contracanto lindo), que mais tarde pude entendê-la do ponto de vista teórico, já que esse arranjo foi puramente intuitivo (eu só tinha 11 anos de idade...rsrs).

 

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7-    Hoje a juventude prefere os games, internet, facebook, como criar o interesse deles em tocar na banda da escola ?

 

RF: Se eu tivesse que iniciar um trabalho de formação musical com o objetivo de ter uma banda, jamais o faria como fiz no início da minha carreira. A essência seria a mesma, mas a metodologia completamente diferente. Naquela época não tínhamos os games, internet, facebook e outras coisas desta nossa era contemporânea, mas tinhamos a bicicleta, o carrinho de rolemã, a pipa, o pião, a rodinha de gancho, o álbum de figurinha, a bolinha de gude, os carrinhos de madeira, os gibis, etc. – televisão era coisa de rico -  e a nossa juventude curtia isso muitíssimo. Hoje, para lograrmos êxito, temos que entrar no mundo deles; tornar a atividade musical algo prazeroso e não uma imposição; os métodos de iniciação musical têm que ser interativos, trabalhando muito com a imagem, a audição, sem aquele “fardo” de encher cadernos desenhando 64 semifusas e penalizando o aluno muito mais do que motivando. O aluno tem que ver atrativos no estudo da música; a cada encontro o aluno tem que sair melhor do que entrou – com certeza vai querer voltar no dia seguinte.

 

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8-    Você acredita que as gestões dos governos, de um modo geral, são suficientes para ajudar as corporações ?

RF: Não, não são. Mas o grande problema é que faltam bons projetos. Às vezes, ou na maioria das vezes, somos muito imediatistas e movidos para grandes eventos. As nossas propostas têm que atender tanto a formação quanto oferecer a visibilidade que os governantes tanto almejam. Precisamos descobrir a maneira certa de nos mobilizarmos.

 

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9-    Como conseguir apoio das empresas em época de Copa do Mundo e Olimpíadas, que estão aí para chegar ?

 

RF: É notório que as empresas, muito mais do que a responsabilidade social, querem visibilidade. Copa do Mundo e Olimpíadas são eventos pontuais e sendo no Brasil são coisas que só tornarão a acontecer daqui a muitas décadas para frente. As propostas a serem oferecidas pelas bandas na busca de apoio financeiro aos seus projetos, têm que estar afinadas com a temática desses eventos. A maioria das empresas, dispostas a conceder patrocínios, só se interessará pela questão se tiver o convencimento que a sua marca estará aliada a grande produção cultural e de marketing  que gira em torno da Copa e das Olimpíadas. É a visibilidade que conta.

 

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RF: Temos que contagiar a sociedade como um todo com essa nossa paixão pelas bandas. Isso não se faz somente com um bom discurso, mas com ação. Busquemos apoio para ocupar as escolas nos finais de semana, formando novas bandas; se tivermos propostas consistentes e respaldo da sociedade, que clama por ações que possam dar um melhor destino à nossa juventude, por certo sensibilizaremos mais facilmente o poder público e a iniciativa privada. Façamos dos diretores de escolas (públicas ou particulares), bem como as Sociedades de Bairro, Igrejas e Clubes Sociais, nossos aliados. A compensação, seja ela pessoal ou profissional, será consequência desse conjunto de ações. Sejamos felizes!

 

 

GRANDE ABRAÇO

 

AFABAN 10/04/2013

 

2011 ENTREVISTA COM O MAESTRO ROBERTO FARIAS. Afaban - Associação de Fanfarras e Bandas do Litoral Paulista
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